segunda-feira, janeiro 28, 2013

Sinto nos dedos


...um cheiro de ferrugem, os dedos sujos. Acho que já faz tempo que não sinto isso. Dói, mas é por falta de prática, e os ouvidos zombem. Também zombo das pessoas que reclamam do barulho, mas o som do rock n' roll pesado e arrastado faz os braços arrepiaram. Meu suor pinga, e se mistura no corpo, embaçando a pintura resinada. Mas não faz mal. Mesmo oxidando o aço nas veias, e com o peso nos ombros, grita os gritos mais sensuais que não ouço há tempos. Que saudade das noites em que a guitarra cantava livre e dos solos que ninguém há de esquecer, nem os vizinhos, nem os amigos. Mas ainda há esperança enquanto houver som, enquanto o sol desce e as cordas vibram, consoando num grave pesado, um bend estridente, com gosto de paixão.

G. Tritany

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Desabafo


Estou triste. Sou um estúpido.
Depois de meses, de vários avisos, de experiências difíceis, eu ainda não aprendi.
Essa coisa que fica impregnada em mim, que eu não consigo destruir, que eu não consigo expulsar. Repulsa, nojo. Forço o vômito e o que sai não me adianta. É como se eu continuasse a cuspir minha podridão por aí. E ela entra como faca nas pessoas que eu mais amo.
É muito ruim perceber que tudo o que se faz está errado, que é necessário reaprender tudo em matéria de relações. É uma merda descobrir que, depois de tantos anos, ainda não sei nada sobre mim mesmo, sobre os outros. E sigo rasgando a minha história afastando aqueles que um dia gostaram de mim.
É como carma.
Mas eu sei de onde vem. O problema é que não está só em mim, mas vem do mundo e me agarra, inconsciente e rápido. É uma merda. Eu não consigo me livrar disso sozinho, porque é sozinho que essas coisas vêm ainda mais fortes.
Hoje mesmo a foto sem graça que tiro da vista da varanda vai servir pra substituir a imagem dolorosa. Eu ainda não consigo acreditar que chegamos a esse ponto. Era tão bonito.
Mas eu estava cego. Não via todas as navalhas que ia arrastando atrás do meu puro egoísmo, não conseguia enxergar as feridas que deixava com meu orgulho e sem dizer o que sentia.
E agora? O que fazer? Preciso que alguém me tome pela mão e ensine. Parece tudo tão distante, não consigo me mover. É horrível transparecer toda essa apatia, todo esse desânimo. Talvez ele já estivesse aqui antes, só estava escondido sob o sorriso dos dias tranquilos.
Queria dormir, acordar numa rede sob o sol fraco da tarde. Ter nada pra pensar, nada pra ver, nada pra fazer. Queria ser uma planta, uma folha de maconha, queria ser uma pedra. Vou virar sal, me espalhar no mar, ser qualquer coisa no meio de tanta imensidão. Talvez aprenda alguma coisa nisso.

G.Tritany

sábado, agosto 11, 2012

Os cabelos

Que me escapam das amarras balançam ao vento. Forte, forte, vento que faz sentir uma sensação deliciosa na barba grande e mal aparada, quando eu pedalo apressado durante a madrugada. Já faz dois dias que sinto essa energia contida justamente na hora de deitar. Só há uma resposta: pegar a chave, descer as escadas e sair pedalando pela noite. 
É apaixonante ver as coisas enquanto todo mundo dorme. E um jazz agitado e doido toca nos meus ouvidos, como se entorpecido pelo silêncio dos sorrisos entre as sétimas. Ai, as sétimas, as sextas e as nonas... Quem sabe o saudosismo não é só reflexo do sabor do vento em minhas coxas? Dói um pouco, mas é a melhor dor do mundo. Em duas horas estou em casa de novo, pronto pra relaxar, pra descansar. Mas não é só isso.
É a inquietação do mundo. É o descanso da calma, é o acordar da emoção, da agitação. 
O mundo não vai acabar amanhã. Então por que essa minha pressa de ver tudo o que tem pra ver por aí? Não sei. Eu só sei que eu tenho medo de esquecer e de ser esquecido. Tenho medo da solidão. Contraditório, porque me alivia a cabeça justamente a solidão da madrugada, pedalando. Só eu e os seguranças com quem troco "boa noite". Sabem bem eles que gostariam de estar pedalando como eu para suas casas, em vez de vigiar falsas ruas, enquanto débeis criaturas inofensivas e ignorantes dormem em seus apertamentos. Bem protegidos os tais. Por quê? 
Pra que tantos muros, se o bom da vida é derrubá-los? É ver o que está além deles, é conversar com o diferente, aprender as marchas de outras línguas, outros olhares.
Estou retrocedendo. Estou com dificuldade em entender a relação dialética entre o indivíduo pensante e o pensamento coletivo na destruição da sociedade da alienação. A ponte é o partido revolucionário! - Gritam Trotskys e Morenos em meus ouvidos. Eu sei, eu sei. Preciso levantar da cama! Revolucionar minha própria estrutura, meus próprios medos. Pegar a bicicletinha que roda de um lado pro outro em meu cérebro, dominá-la em direção à vida. Organizar as coisas, ter tempo pra ler, pra saber, pra viver, pra crescer, pra amar, amar, armar a mim mesmo de todas as flores e cores pra construir um mundo livre, que não seja só dentro dessa cabeça esfumaçada, que agora olha o céu estrelado da varanda do meu apartamento. A primeira estrela ainda não apareceu. Nem eu.

G. Tritany 

quarta-feira, agosto 01, 2012

Sou oco.

É sempre uma experiência muito rica olhar minha silhueta no espelho, numa madrugada inquieta. Dá pra imaginar todos os rostos que podiam ter tomado o lugar do meu.
Dá pra questionar por que é o meu corpo que esquenta a cama ao lado desse corpo que dorme profundamente ao meu lado. Esse corpo que exala o cheiro fértil do amor que cultiva pelo rosto em minha silhueta oca.
Sinto um vazio, uma dor do vácuo que implode minhas costelas sob uma pressão do mundo, me dizendo o que fazer, o que dizer. Visto as cores que aprendi a acreditar, mas visto-as porque são as melhores cores que há pra se vestir. A história mostra isso. Mas não é das cores que estou cansado.
É de ser enrustido é que estou cansado. De ser artista e olhar a arte com pesar, com a dor de nunca tê-la produzido. De nunca ter sujado as mãos com suas cores, com seu calor. É de nunca ter escrito as palavras que eu vejo todo dia sair de minha boca e se perderem num éter infinito, no vento vazio, na cidade de ninguém. Cidade para quem? Cidade que mente, que engana. Que suja nossas camisas de lama. É cidade triste, que cresce todo dia em sua deformação arquitetônica e psicossomática a serviço dos ricos, dos que compram sua liberdade de explorar os que se sujam em suas palavras. Nos ocos que repetem todos os dias as suas mentiras. Eu estou cansado de repetir essas mentiras. Estou com raiva dessa sociedade da destruição. E é a nossa voz de lama e de fome, sem medo, que vai destruí-la. 
É suar a camisa, é ter orgulho das cores, das bandeiras, dos ideais, do método. É defender a vida e a sua evolução no sentido mais coletivo da palavra. 
A madrugada se arrasta. Suavemente, vou deslizando minhas mãos pelas teclas, imprimindo meus "tec-tecs" no sono de minha companheira. Ai, se ela soubesse o quanto temo por perdê-la. Talvez não soltasse mais minhas mãos. Um medo de ficar sozinho, de me perder nesse escuro, nesse frenesi. É muito ruim perder a confiança em si mesmo. Estou me revirando do avesso. E o que trago à tona é sujo, não é verde. É medonho, é medroso.
Engraçado, o suor de nossas fantasias ainda me suja o corpo. Suja o corpo, expulsa o que  me polui a alma por dentro, transforma em sebo, e me dá esse cheiro de cansado. Esse cheiro que fica no quarto.
Só que dentro de mim não tem nada.
Não tem as palavras que eu escrevo, porque elas já se foram. Não tem as músicas que eu não canto, porque não as crio. Não tem a construção de um projeto novo, porque tudo se esvai com o tempo. E sigo mudando, e sigo me esvaziando. Até onde vou chegar? O quão fina pode ser esta casca? Será que me sobram os ossos, os músculos, os olhos?
Pra que os olhos? Se tudo que vejo já foi feito, dos olhos não sai nada. Os olhos são a porta de entrada para o oco. Do oco, saem as palavras pela boca, a violência pelos punhos. É por isso que o espelho me mostra oco. Porque dos olhos não sai nada.
Que drogas cultivar agora? Qual será o corte do meu cabelo? O que eu vou estudar, sobre quem vou escrever, quem vai me ajudar? 
E o sexo? Vai ter o mesmo cheiro, as mesmas cores;sabores? 
Me afogo em chá pra ver se eu durmo. Meus olhos não fecham: é desconfiança. Quero descansar, quero esquecer. Quero ver o mar, quero me exercitar, quero amar, amar, amar, amar intensamente até gozar num contínuo de prazer que me preencha a alma, que escreva meus dias em palavras doces, com café e bolo de milho. As tardes de calor esfumaçado, de cheiro doce, tomadas num bangue intenso, cheio de suor e de luxúria. Luxúria. 
Gosto de dizer que estou mudando. A realidade não vai mudar de todo, só uma parte dela. A minha.
Por dentro: o vazio vai se encher de vinho e de vitórias. Mas vai semear flores, vai semear choros e comédias.
No mais, só umas letras que vão se alternando. 


G.Tritany

quarta-feira, maio 30, 2012

Meio-fio

Dói acordar, sentir o chão tremer, os olhos ainda inchados de sono, as pernas não aguentam o peso do corpo. Me olho no espelho: quem é essa pessoa sorrindo um sorriso manchado, doente, arranhado pelas cordas que a vida amarra e desamarra?

Parece que deixaram uma zona pela casa. Está tudo horrível.

O sol lindo lá fora me desafia, diz: covarde, medroso, não merece esta luz!

Hoje eu acordei suado, com o coração pendendo por uma pontinha, triste, como se nada tivesse valor, e todo esforço que eu faça só me transforme naquele monstro que eu repudio cada dia mais.

Eu queria um abraço, mas eu não tinha. Eu não tenho coração.

Saí na rua, olhei o sol, desafiei sua imponência, sofri com seus raios, sua raiva. De repente, comecei a chover. Uma chuva dolorosa, que sai de mim, que escorre pelo rosto, faz molhar a camisa, suar e gritar. Faz querer sair correndo, fugir deste mundo, onde tudo é triste, onde vivemos correndo atrás de amor, sonhando com amor, e, ao mesmo tempo, fugindo dele.

Frio, encurralado, me sento no meio-fio. Não aguento ir até o fim da rua. Feio, sujo, suando como um esguicho, chovo como se não tivesse mais jeito.

Estou com medo. Estou com medo.

Estou em casa agora. Chovo em mim, inundo os outros com meu medo sujo, meu sentimento de angústia. Uma impotência, uma incapacidade de mudar, de crescer. Estou cansado disso. Respiro fundo.

Eu amo, eu amo. É por isso que eu tenho certeza que tem alguma coisa no sol que ainda vale à pena olhar; que ainda tem um verde bonito debaixo de toda essa pele velha que eu visto. Eu preciso me rasgar, chover até ressecar; preciso expulsar as vísceras pela boca.

Quero doer, quero chover, quero que o amor e os vermes venham me comer. Quero um cigarro, uma xícara de café, a queda livre que me atrai até a sacada. Calada.

Não vou mais chorar hoje. Vou sair na rua de novo. Não sei se eu volto.

Gui

segunda-feira, abril 30, 2012

Hoje eu acordei de cabeça pra baixo,

de pés descalços, cabelos molhados. Um gosto de sal na boca; o corpo cheio de areia, como se tivesse rolado na maré a noite toda, desacordado.

Amarrado pelos calcanhares, só conseguia ver o sol que me ardia os olhos, enquanto o mar me ardia a pele ralada. Sangue e sal se misturavam.

E aí veio você: me olhou com aqueles olhos de cansaço, que você sempre exibe. Saltou por cima das ondas, esqueceu que eu estava ali. Levantou as saias, e se aproximou do mar.

E todos os braços que te ajudavam a me prender, agora também me puxavam para perto de você; afogavam minha cabeça, me faziam engolir tantas preces, tantas histórias que se apagavam da minha memória, como se empurrassem acordes pela goela de uma viola…

Sensual e feia, sua voz cantava uma música de saudade. Uma saudade dolorosa, mas secreta. Sem segredos, você nunca cantava essas coisas tristes quando a gente era um. E minha mente ainda viaja, agora, de longe, nos versos que você sussurrava para Iemanjá.

Suave, mas rouca, pedia para voltar. E ignorava minha presença sofrida, louco por me agarrar em suas coxas; desamarrar os pés suspensos por cordas duras.

Eu não quero ir.

Me ensina de novo a escrever seu nome na areia, pra quando o mar lavar, levar pra mim todas as melodias roucas e as histórias bobas, que você me contava antes de sorrir.

G. Tritany

domingo, abril 22, 2012

Mergulhado no cosmos...


...tenho pensado muito se existe uma lógica na natureza que permita que os eventos se organizem de alguma forma que se propague, como num fluxo energético, que dissipado pela natureza, se concentra em focos, gerando eventos consenso.

Essa discussão toda, pode parecer algo relacionado à fé ou uma visão alternativa à religiosidade cristã, que substitua a improvável "vontade divina" nas transformações, mas não é nada disso.
É uma questão biofísica: eu e você somos matéria. E é essa matéria viva que produz energia a todo momento. Essa energia que governa os processos biológicos tem uma origem evolutiva, e se propaga além do indivíduo. De alguma forma, isso significa que as ações e tendências biológicas são governadas por um processo energético, que é também social, porque as ferramentas da sociedade são usadas para transferir essa energia. 
Assim, quando transmitimos emoções através de um texto, uma poesia, uma música, estamos dissipando energia na construção de um meio social que permita repassar uma emoção. A recepção de uma emoção diferente da originalmente transmitida, neste caso, pode acontecer, porque o meio usado para propagação de energia é um meio material de comunicação. É compreendido de maneira diferente pelos indivíduos.
Outra maneira de ver isso é quando uma prática religiosa imprime ao indivíduo uma sensação espiritual. Sem entrar no assunto da espiritualidade, eu digo que ao menos ela pode ser compreendida como um estado psico-emocional e, às vezes, sensorial. Enfim, um processo que também é biológico. Assim, dá pra dizer que a atividade humana social é capaz de manipular energeticamente a atividade biológica. Eu vejo isso de uma maneira simples: práticas religiosas teriam essa capacidade, mas também práticas sociais como o convívio social, o sexo, a arte, por resultarem de uma interação entre o indivíduo, através de seu caráter, com a sociedade e, diretamente, com outros indivíduos, dão passagem a um fluxo energético que tem influência sobre os aspectos bio-psicológicos da vida. 
Talvez isso tenha algo a ver com a biofísica do orgone, descrita por Reich. Talvez tenha algo a ver com as técnicas usadas na medicina oriental, para o restabelecimento de um equilíbrio energético-vital, responsável pela saúde. E a própria medicina ocidental joga com vários eixos de equilíbrio: hormonais, energéticos, elétricos. A questão é: o que/quem define os critérios e as fronteiras da ciência para estudo e compreensão dos processos naturais? Hoje ainda rejeita-se a homeopatia como forma de tratamento para desbalanços da homeostasia.
Partindo do princípio que empiricamente essas técnicas de tratamento são, sim, muito úteis e eficazes, eu concluo: 1º, que as práticas humanas são capazes de manipular a energia cósmica que governa os processos biológicos, e 2º, que a transmissão dessa energia através de um canal social (meios de comunicação, práticas religiosas, drogas homeopáticas, práticas sexuais) é subjetiva, e, portanto, têm efeito diversificado entre os indivíduos.
Agora, o que eu estou buscando entender é: como a transmissão de um fluxo energético, na natureza, se transforma num processo geral, que propaga ondas energéticas evolutivas, que se chocam em diversos pontos, gerando zonas de conflito. Acho que é essa combinação de ondas energéticas diferentes em zonas de conflito, sob influência de pressões naturais (ou sociais), que vai gerar eventos aparentemente coincidentes. 
É fácil ver isso ao analisar o indivíduo biológico. O dobramento de uma proteína em uma conformação estável depende de milhares e milhares de probabilidades matemáticas, combinadas com uma tendência biológica à dissipação de energia ao meio, e uma pressão natural ao caos. Em meio a isso, verifica-se nos indivíduos vivos, uma alta fidelidade na “construção”, e no dobramento dessas estruturas. É um processo altamente energético. Agora, o que determina que essa energia não se propague em onda, levando o corpo a uma tendência construtiva/destrutiva, que tenha reflexo biológico, psicológico, social? Entendo que assim, esse desdobramento social leva à propagação da energia pela natureza, e assim, influencia outros indivíduos.
Se a educação do indivíduo, e a formação do caráter, bem como a experiência e o amadurecimento, bem como outros eventos sociais, estiverem relacionados a um fluxo energético geral da natureza, então há algo além da relação social entre os indivíduos, que é dependente dela, mas que tem ação reflexiva sobre as práticas sociais e sobre a autodeterminação da vida.
Enfim, que tal mais um chá?


G. Tritany

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Uma sensação inebriante,



Uma saudade do passado, mas não de revivê-lo. Acordo com o dia andando, e me sento na cama com todo o deboche de poder dizer: - Não tenho nada pra fazer! É claro, que não é tão verdade assim, mas só de pensar na calma e na tranquilidade de fazer tudo com uma xícara de chá, ao som de uma rádio maravilhosa, e um tempinho gostoso de ficar em casa; dá vontade de ler todas as receitas malucas, repensar a cor das frutas, e descascá-las de suas peles tóxicas e maduras.
E ouvir o portão abrir, para um antigo sentimento atravessar, e marcar meu dia, por uma onda de emoções puras, enlevadas num bangue, em resumo... em outro planeta!

G.Tritany

terça-feira, novembro 15, 2011

Eu acho que o mundo está perdendo artistas.

É, eu acho que os artistas, poetas comuns e cantores de chuveiro, estão morrendo, definhando em sua pseudo-arte, perdendo em capacidade criativa. Isso não é um fenômeno pessoal. Isso é uma consequência lógica e clara de uma crise histórica, de direção da humanidade.

Não é um sonho, não é uma estória. Se hoje você só avança até o ponto em que continua sendo poeta de microblogs, isso tem um motivo. Pra mim, isso é fruto de um limite intelectual imposto a você –determinado pelas condições materiais e culturais que regem sua educação-, e a todos nós, por um meio educacional chamado mundo-exterior (ou qualquer coisa alheia a você, exclusivamente representado por seu corpo material). O que vemos em nossas vidas não são imagens reais criadas por uma sequência natural e lógica, mas sim imagens discursivas ideológicas, que nos forçam a achar natural que a nossa história tenha se transformado em estória, e a maior possibilidade artística da humanidade tenha se transformado em sonho.

Tou dizendo isso porque eu olho com muita tristeza cada vez que um potencial artista é arrastado para o olho da ignorância, retrocedendo a uma condição reacionária e de sonhos superficiais. Ser artista é ser radical, é sonhar o surreal, é comer gente, é combinar o desigual, nascer de novo em novo. É entender que aquela arte que nos é mostrada pela grande não-arte, não é arte. Aquelas análises superficiais, da relação direta, do indivíduo com seu ambiente restrito, não revolucionam, não criam o novo. Não dão nascimento à arte verdadeira. Temo por nosso futuro, quando vejo artistas sucumbirem aos pés pós-modernos da pseudo-arte comercial.

Tantos bons futuros morrem cada vez que a contrarrevolução nasce no coração de um artista. Falecem em si, infiltrados pela malignidade de seus pensamentos micro-mundanos, esquecidos por toda a classe, que já não se reconhece como tal. E que tal se nossa gente se animasse além dos muros de países. Que tal se nossas mãos cavarem até as raízes, destruindo religiões e preconceitos, despindo governos e suas teníases, serventes ao próprio engorde de um mais-do-mesmo, que volta e meia acaba em crise?

Temo por nós, mas revoluciono a mim mesmo, a cada despertar, a cada chuveiro frio que me faz acordar. Sem medo, sem glória, sem títulos ou grilos. O mundo é nosso, e é pra ser feito em uma só parte.

Quem está sufocando sua arte?

G.Tritany

sábado, agosto 27, 2011

Vamos Falar Sobre Impotência Sexual

É, vamos falar sobre esse assunto que causa tanto constrangimento em quase todos os homens e mais uma boa parcela das mulheres. Já parou pra pensar de onde vem todo esse constrangimento?

Primeiro passo: vá ao Google Imagens e procure Impotência Sexual. Estou usando o termo “impotência sexual” pelo seu sentido humilhante mesmo, já me explico melhor. Tenho certeza de que lá você vai encontrar um monte de imagens, e que o conteúdo delas é, sem dúvida, humilhante, vexatório, ridicularizante, e talvez até cômico. É piada mesmo, gente. Agora vou lhes dizer o que é que vocês estão vendo: é a imagem que causa a impotência, muito mais do que a impotência que causa a imagem.

Vamos pensar sobre isso.

Já parou pra pensar o quanto o homem é influenciado por toda a propaganda vexatória que a sociedade faz sobre a impotência sexual? Cara, quando o homem broxa, a única coisa que acontece de verdade é a flacidez do pênis, que se segue – e realimenta – uma gama absurda de preocupações e nervosismos, ou seja estresse. Percebe como o homem é muito mais afetado pela imagem de que broxar é vexatório, do que pela realidade concreta? Percebe como grande parte das imagens mostra um homem envergonhado ao lado de uma parceira insatisfeita?

Pensa na ideia transmitida pela imagem: é ela que forma a vergonha no homem que broxa. Sim, porque o conjunto de informações disponíveis e retransmitidas pela sociedade leva a crer que a impotência sexual é, socialmente, a característica que separa homens superiores e homens inferiores. Bom, a verdade é que todo homem vai broxar alguma hora, não porque ele “não funciona”, mas porque essa é uma condição fisiológica, que deriva do estado emocional. É claro que se  persistir a dificuldade de ter ereção (ou de mantê-la) como algo frequente, é importante consultar um médico, mas com a noção de que a maioria dos problemas sexuais são de origem psicológica, ou seja, cabeça cheia de preocupações.

Sabe o que mais: e quando a mulher “broxa”? Quero dizer: a mulher pode broxar sim. Ela pode não desenvolver a excitação necessária para se lubrificar, ela pode sentir dor e desconforto ao sexo, ela pode não sentir tesão. Mas isso não é encarado pela sociedade como motivo de humilhação. Quero dizer: o homem deve “cumprir seu papel”, dar prazer à parceira, deve sempre estar a fim de transar, e se ele, por algum motivo não estiver legal pra isso, ele é “impotente”. Machismo, não é?

Impotência sexual, disfunção erétil, “broxar”; Todos esses nomes se referem à mesma coisa, mas todos têm significados diferentes. “Disfunção erétil” não é um nome para tornar o ato de broxar “mais aceitável”, é uma estratégia de marketing que visa transformar uma situação cada vez mais frequente em nossa sociedade numa “doença”, que pode ser comercializada¹ e tratada com remédios e outros tratamento místicos. Agora, “impotência sexual” é que é a grande história. Nenhum outro nome é tão eficiente em termos de transmissão de ideias. Isso acontece porque é uma ideia muito comum e muito negativada pelas pressões sociais; ou seja: é muito fácil comprar a ideia de que o homem que broxa é IMPOTENTE, incapaz de satisfazer a parceira ou o parceiro, é menos potente do que o “normal”, ele é incompetente, envergonha a pessoa que está na cama ao seu lado. Todas essas ideias têm um caráter negativo e desestimulante; muitas delas passam pela cabeça do homem quando ele broxa.

Ou seja, o que eu estou dizendo aqui é que a imagem – tendo imagem como o conjunto de ideias reproduzidas na sociedade – da IMPOTÊNCIA sexual INIBE a POTÊNCIA SEXUAL, tanto porque ela se torna uma preocupação e uma vergonha na cabeça do homem, quanto porque ela denigre o homem ao olhos da parceira ou do parceiro.

E vou além disso. A ideia veiculada pela imagem da impotência sexual serve muito bem ao seu propósito: ela inibe a POTENCIALIDADE SEXUAL de toda uma sociedade. Digo potencialidade sexual, porque torna a sexualidade passível de ser algo vexatório. E a sexualidade deve ser livre; deve ser livre para ser como for, magra ou gorda, homo ou hetero, matrimonial ou adúltera, individual ou grupal, que seja livre de mercantilização e de uma influência machista e capitalista que a torna feia e reta, que a torna pornográfica e sem sensualidade, que a torna cada vez mais distante do que é: a troca de prazer mútua, que eleva nossas almas a um estado de êxtase igual nenhum outro na terra.

Agora, pensa bem: quem é que está inibindo a sua sexualidade?

G. Tritany

 

1: “Os Vendedores de Doenças” – Ray Moynihan e Alan Cassels