A mandala parecia um olho vivo, sugando pra dentro toda a luz que eu podia criar no esforço de sobreviver. O suor já escorria na fronte e o medo era intenso. Meia noite, e nada mais parecia impedir que continuassemos conversando naquele santuário onde cada peça fazia sentido no seu lugar único, onde pendiam as folhas úmidas. Ali jaziam os gênios mortos do ascenso anterior e cobriam-se de vergonha os moralistas. Jovens mergulhavam em redes de saudade, e o olho negro da mandala seguia a observar. Nada a distraía. Nem a frigida calma dos espelhos, nem a sorte do revolucionário morto e suas indiscretas indicações sobre a vida triste dois que têm que suar e sangrar suas mãos todos os dias para saudar o sol por mais uma manhã.
O sol, mandala suprema, sumiu antes que pudéssemos ver o rosto de Mae West por dentro. Daqui a pouco ele vai nascer de novo, e eu tenho certeza de que entre estes prédios daqui, com cor de zona sul, vou ter a impressão de que o dia ainda não nasceu.
Agora já passou anteontem, já passou hoje. Já não sei que será de agora. Só que o mesmo jazz dança em minha cabeça, embala os sonhos sensuais que tenho aqui sozinho na rede... E a vontade de correr a cidade no fusca, sair pra bem longe, onde eu possa mergulhar no azul do mata, sentir o cheiro de água fresca, deitar a cabeça na areia e dormir nos seios de uma música há tanto esquecida. Fora do poder, tudo é ilusão. Amandla awethu!
G.Tritany
terça-feira, junho 17, 2014
domingo, fevereiro 02, 2014
A Pedra e o Casulo
São muitas
músicas passando pela minha cabeça, milhares de vozes e de solos de
guitarra cantam um fim doloroso do que começou e viveu como um
turbilhão de cores e sons. Hoje, depois de suar minhas dores no
asfalto, só consigo olhar para trás e desejar ter feito tudo
diferente. É muito ruim sentir isso. Tudo diferente, mas nem tudo.
Te conhecer, entrar nesse transe incrível que é o entrelaçamento
de nossos dedos, enquanto os lábios fundem suas peles e me
transformam um pouco mais em você e te fazem sentir um pouco de mim,
foi – e tem sido – a experiência mais viva de emoção que eu já
conheci. Eu não preciso pedir desculpas para mim mesmo, eu estava
errado. Fiz o oposto do que disse, pensei mais em minhas desculpas do
que na felicidade de nós dois, e agora mal consigo expressar numa
palavra a tristeza que me corta o peito.
O sol hoje
nasceu cedo. Dificilmente pudemos compartilhar esse momento juntos,
eu sei. Você dorme tarde, pode até ver o sol nascer ao fim do seu
dia. Para mim, o primeiro raio é o começo de tudo, e a décima
segunda badalada é a hora de recolher minhas abóboras, porque o dia
já quebrou todos os cristais.
Há uma
pedra no meu peito. É pesada, vermelha como o amor que nós
nutrimos, e me faz sentir mais humano, porque quando me sinto mais
duro, sei que é da ternura que nós nos criamos, e que é dela que
precisamos. Demorei muito para aprender isso, e se me perguntar,
ainda não sei muito bem o que significa este sentimento, porém,
neste momento, olho pela janela: só consigo ver todas a paisagem em
sua concretude vazia. Não tem você para eu mostrar nada.
Ontem foi
errado. Fui errado. Estava tão certo de que nos veríamos, que
esqueci de tudo, fui a outro mundo no meu desespero. Foi um momento
insano mesmo; a insanidade de encontrar onde havia um coração, um
calor, um carinho, um cheiro, descobrir que não tem mais nada.
Notar, de repente, que se está completamente sozinho é muito ruim.
E dói mais porque nada passa essa solidão, porque ninguém pode
entender o que passou no meu peito, exceto você, que como disse “já
se transformou”, já findou. Rompe esta casca, voa, mostra tuas
asas coloridas para o mundo, deixa o sol brilhar nas tuas costas
azuis. Foge para longe. Mas não esquece a ternura que, enquanto
pupa, você me mostrou. Não te esquece que ainda me sinto verde, e
que estou completamente amedrontado, aterrorizado, desesperado frente
ao escuro casulo em que me encontro. Quem sabe, num outro momento,
você queira voar comigo, e me mostrar, do alto, os lugares por onde
você passou.
Obrigado.
Gui
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Se anteontem durasse uma eternidade...
eu poderia ficar para sempre contando cada gota do seu suor, cada fio de cabelo que fugia ao quadro, enquanto você refletia a emoção de um lindo filme, fletia lágrimas para dentro do nosso espaço e enfeitava minha tarde com a cor do seu abraço.
G. Tritany
G. Tritany
quinta-feira, dezembro 12, 2013
às vezes passo o tempo com vocẽ
ao meu lado, fazendo qualquer coisa, completamente concentrada nos seus problemas. Estamos lado a lado, mas muito distantes. Não tem problema. Śão bonitas as fotos que você me mostra, quando seus olhos cruzam os meus.
Você diz que olha dentro de minha alma. Não é tão verdade assim. Queria ter feito tudo diferente, ter deixado a alma exposta. Esses pequenos buracos dos olhos não deixam transparecer a explosão que se dá agora dentro de mim. A impotência total... não consigo consertar tudo o que passou.
E sigo achando que perdi o que tinha de arte dentro de mim. Me ajuda a encontrar. Você tem tanto, tem tanto amor, tanta poesia, tanta música, arte, dança, sentimento... Preciso olhar um pouco dentro dos seus olhos, para ver se acho de novo a janela para entrar nesse universo maravilhoso que encontramos juntos. Você me deu a chave. Eu só preciso encontrar onde eu a deixei...
Você diz que olha dentro de minha alma. Não é tão verdade assim. Queria ter feito tudo diferente, ter deixado a alma exposta. Esses pequenos buracos dos olhos não deixam transparecer a explosão que se dá agora dentro de mim. A impotência total... não consigo consertar tudo o que passou.
E sigo achando que perdi o que tinha de arte dentro de mim. Me ajuda a encontrar. Você tem tanto, tem tanto amor, tanta poesia, tanta música, arte, dança, sentimento... Preciso olhar um pouco dentro dos seus olhos, para ver se acho de novo a janela para entrar nesse universo maravilhoso que encontramos juntos. Você me deu a chave. Eu só preciso encontrar onde eu a deixei...
segunda-feira, março 11, 2013
Olho para o lado um instante,
você está aqui.
É
só uma ilusão? Por um momento, pude jurar que meu coração
saltava à boca. Não sabia o que fazer, parecia que um nervosismo se
apoderava de mim novamente, um frio na barriga, apesar da
naturalidade com que as coisas ocorrem. Não estou de cabeça para
baixo, não é preciso olhar o mundo desse jeito. Meus cabelos úmidos
não estão cheios de sal. É o suor no calor desta cidade.
Um
peso paira sobre a minha mesa, um medo de não estudar o
suficiente... ainda assim, paro. Abro, em minha curiosidade, sua
tela. E fico tentando pegar no ar as palavras que ficam soltas, como
enigmas de uma história que se desenrola com elementos do passado e
do presente, misturadas em expressões metafóricas e sensações
metafísicas. Eu não sou bom nisso, assumo.
São
essas cinzas as mesmas que voaram da minha varanda?
Meu
café esfria, e também a minha criatividade. É hora de voltar para
casa, já está tarde para começar o dia.
No
silêncio da noite, outro dia, chiei, gritei, cantei. Estava só.
Estava cansado, surrado, confuso, cheio de dúvidas. Cheio de
tristeza, cheio de solidão. E daquele lugar esquisito, só queria ir
embora, só queria ir para casa. E agora, novamente, só quero deitar
numa rede, após uma tarde de praia, sentir o sal no meu corpo sugar
minhas energias e proporcionar o sono dos despreocupados. Lá pelas
tantas, em minha preguiça fenomenal, olho o mostrador do relógio e
te convido para um café e um bolo, para soltar vapor e ver as
estrelas.
Mas
não é isso que estamos fazendo agora, não é? Tudo ao seu tempo,
sem machucar.
Te
quero a calma, te quero música, como canta a viola afinada ao sopro
do vento, que trouxe de novo a mim a canção recém composta,
embrião do sonho e da vontade, morte da dúvida e do medo.
Dança
como a menina que outrora cantava notas dissonantes.
segunda-feira, março 04, 2013
Vejo
o sol baixar à frente, com seus raios rasgando as cortinas nos
outros prédios. É normal. Toda tarde deve ser assim, mas hoje há
um livro de um assunto muito chato à minha frente, há um sono que
não me abandona, há uma vontade louca de sair por aí, pegar a
bicicleta e passear pelo mundo. Tenho medo de nunca mais encontrar a
resposta para tantas perguntas, de ter grafado palavras duras demais.
Mas não é hora de pensar nisso.
Tem
um postal ao lado da minha mesa, faz lembrar de dois artistas. Duas
pessoas daquelas que cruzam nossas vidas. É interessante como o
coração aberto pode levar nossas mentes a se conectarem com totais
estranhos, mas que dali em diante, passam a exibir um sinal: a
ligação que temos. E não é à toa: cada vez que sua imagem vem à
mente, o cérebro atribui um significado a mais. O signo emocional.
E o signo que me vem à mente ao puxar de dentro de um livro seu postal é o de que tudo mudou rápido demais, e eu esqueci para que serviria aquela pequena peça de arte. Agora ela é mais uma relíquia de um sentimento avassalador. Se olhada de fora, não diz nada, mas guarda sob a ponte o mesmo sol que desce agora na minha janela.
É
confuso encontrá-los sozinho, mas ainda assim, dizer “adeus, boa
sorte”. Que os ventos do mundo levem uma mensagem de carinho. Nesse
dia me senti tão só. Mas é só uma lembrança.
O
vento leva agora um pedaço de papel para cima. Estou no sétimo
andar, e vejo esse leve bilhete voando em direção a outra janela,
bem ao longe. Ainda posso imaginar que alguém de fato possa estar
tentando se comunicar, que esteja lançando uma mensagem desesperada,
que, como mágica, abandona seu remetente, para encontrar alguém que
ainda não pode compreendê-la.
Às
vezes compartilho do desespero de Pink. Quando estou sozinho, não
quero drogas para me sentir mais calmo, nem braços, nem abraços.
Mas é um sentimento ruim, doloroso.
Eu
quero os sorrisos de hoje, o som das conversas, a vontade de
contribuir a cada dia para mudar este mundo. A mudança para que faça
sentido de verdade dizer que o estudo dos manuais técnicos vai fazer
construir a sociedade, em vez de consumir minha juventude na
alienação individualista, com o sonho de um pretenso brilhantismo,
um sonho sem realidade. Quero o sonho coletivo, que a gente pode
construir em bases sólidas, organizando os que também sonham e que
lutam, para destruir todos aqueles que estão embarreirando a nossa
liberdade e o nosso futuro.
Nada
mais.
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
A noite chove em mim.
Que
é essa saudade no meu peito?
Que
é essa insegurança que bate toda vez que me pego sozinho,
distraído. Será que é medo de durar para sempre? Hoje só mergulho
em dúvidas, e quando a chuva caiu, só molhou minhas esperanças,
que, pesadas, desceram pelos bueiros sujos da cidade, junto com todos
os outros sonhos daqueles infelizes que caminhavam apressados ao meu
lado.
Já
está na hora de ir para casa, mas eu não me levanto, não tenho
ânimo para me olhar de novo sozinho, preparando o jantar, olhando o
prato vazio à minha frente. Ali deveria ter um sorriso, um rosto
amigo, um jeitinho de olhar... desvio os olhos para o livro de novo.
Está tudo bagunçado em minha mente. Enquanto percebo as dores da
noite, me preparo para um minuto de esquecimento, de teatro. Desligo
a mente, dali nada vai sair. Assim eu relaxo, pelo menos por um
segundo, até perder a hora.
É
tarde, estou cansado, mas estou sem vontade de dormir. Fica frio o
quarto vazio, e eu fico me perguntando 'onde foi parar'?
Só
resta calar.
Em
algumas horas, preciso estar novo, de novo. Preciso dormir.
Preciso
de tanta coisa...!
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
O
suor escorre pela roupa, carrego um peso que mal posso suportar. Mas
dessa vez não é do coração. Ainda assim, toca na minha cabeça a
música que não me deixa esquecer a vontade de sair correndo, de
pegar o primeiro ônibus, de fugir desse frio artificial, desse
ambiente seco e sem voz. Quero suar sob a luz da lua, respirar
baixinho, ver a mágica subir em fumaça.
Meu
coração chora ao ouvir a música que eu há tanto conhecia, ao
ouvir sussurrar no meu ouvido uma outra voz pra dizer as velhas
palavras, a mesma música. Longe, minha mente se esvai, eu desapareço em retratos.
domingo, fevereiro 24, 2013
Pensemos na manhã, esqueçamos o resto!
O
sol faz ebulir o vapor que nos esquenta os ombros, que faz suar a
testa. Mas os olhos se arregalam, e vem o vapor subir pelas narinas,
tapar os ouvidos e aguçar o toque. Articulam-se as mãos, revelando
o que há de mais neste mundo, que não pode ser visto por dentro da
relação estrutural, mas de fora. Nem tudo são sons numa conversa,
mas o violão pode ser o meio fluido por onde as palavras carregam a
história.
Mas
a companhia é boa, e a realidade está em debate. Quase não noto
que o dia passa rápido, mas passa bem. Parece que estrelas passaram
sobre as nossas cabeças enquanto o sol nos impede de vê-las.
Afinal,
é domingo, que mais poderia esperar?
No
caminho da libertação, fortes ondas podem ser ouvidas, trazendo o
sopro do mar, aquele que nunca vimos juntos. Que azar.
Alegra
me o coração saltar de dentro de uma onda com os braços abertos,
para mergulhar no céu, onde sou livre como um pássaro para voar,
para esquecer. Steiner está errado. Esquecer não muda a realidade,
não amadurece nada.
Nada
muda o fato de que sozinho, já em casa, meu corpo salgado estranha a
solidão no vazio deste sofá tão vasto. O mesmo vazio que me
empurra para fora do sono, apertado na cama. Nada que eu possa parar
por vontade. Qu'eu sinto agora é só saudade. Steiner está errado.
Ou é a sua interpretação que está. A coisa não se torna
automática, e se virar isso, o esquecimento é maléfico.
Agora
sinto na varanda o cheiro da jornada mais cedo. Me levava para fora
de mim, para um plano onde é difícil ver esse coração bloqueado,
batendo meio torto. Agora sinto que aquilo que pulsa em mim tem nome,
e causa um embrulho no estômago. Ou é só o ajeitar de coisas no
vazio. Quanto mais eu como, mais me encho de nada.
Mas
a violência das ondas ainda me molha as ideias, dá vontade de
sorrir para a lua enorme, que eu vejo de minha varanda. Vapores agora
sobem do chá, que eu materializo sobre o banco de madeira ao meu
lado, de tanta vontade, mas que ainda está sobre a mesa, esperando
para ser servido.
Que
seu sabor possa me fazer lembrar de ontem.
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
Tato?
O
que é essa sensação? A sensação da falta de um toque, alguma
coisa que faça a pele sentir a maciez de outra pele, o suficiente
para trazer a sensação agradável de que se pode dormir em paz. Eu
não consigo dormir em paz.
É
realmente interessante, estive pensando outro dia, como é possível
que nos relacionemos todos os dias com muitas pessoas, que tenhamos
conversas longas e discussões que provocam nossas mentes e nossos
corações, sem que falemos de nós mesmos, do que somos e do que
sentimos. É incrível como é possível conhecer tanta gente e poder
chegar em casa com a certeza de que ninguém me conhece.
E
o mais engraçado é a capacidade de sentir vergonha, uma vergonha
dolorosa, de ser gente, de ter sentimentos normais, de ter emoção.
Não tem graça nenhuma. E todo momento é mais solitário que o
anterior. As relações parecem não fazer sentido, e tudo o que
sobra são lembranças do passado, fomentadas pela solidão que faz
com que minha voz desenrole longas conversas comigo mesmo.
Se
eu pudesse voltar atrás, faria diferente? Será que seria capaz de
realmente sentir o que as pessoas sentem, de estar no mesmo nível de
relação, de achar normal todas as emoções pre-concebidas,
trazidas de um programa autodidático subconsciente coletivo de
ideologias imundas? Eu não sei. E se soubesse, voltaria atrás, só
para rever cada degrau em que pisei até descer a este ponto, onde
ninguém pode mais descer, porque eu mesmo rompi a escada, o caminho
que levava até mim.
Não
sei, gostaria de um abraço agora. Mas um sincero, com direito a
abraçar o quanto quiser, até os olhos baixarem e dormir suavemente,
sem medo, preocupações ou dores.
O
sono vem, mas não traz consigo a calma. É um sono agitado,
apertado, angustiado.
Boa
noite. Vou abraçar meus sonhos.
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